sábado, 31 de maio de 2014

»»»»» VIDA «««««

A vida é um desalinho !
Um horizonte !
Se olhar-mos com olhar ameno...
Talvez encontremos perdido,
O carinho em miragens desfocadas, falaciosas,
Entorpecido...
Pobre amor perdido !
Vagabundo em movimento,
Sem rumo certo...
Resplandecência ?
Será do rio... A água é corrente,
O amor é a  fortaleza,
de um caminhante ;
Amores perdidos, delirantes,
Cansado, abatido, sem rasto,
como se houvesse sido, absorvido...

Nesse dia enchi-me de raiva !
passei a noite sem dormir,
chegando a manhã,
levantei-me com os nervos a doer...
Decanto o nosso amor... Adormecido;
Amanso o andar... Respiro fundo...
E tomei a decisão...
Memórias dissolvem-se, como restos de corpo !
Para quem já não tem prazo fixo para reverter o mundo !

sexta-feira, 23 de maio de 2014

^^^~ Distância ~^^^

Não vás para tão longe !
Vem sentar-te ,
Aqui na chaíse-longue, ao pé de mim...
Tenho o desejo doido de contar-te
Estas saudades que não tinham fim.

Não vás para tão longe !
Quero ver
Se ainda sabes olhar-me como d`antes,
E se nas tuas mãos acariciantes,
Inda existe o perfume de que eu gosto.

Não vás para tão longe !
Tenho medo,
Era sempre demais o curto espaço,
Que havia entre nós dois ...
Agora , um embaraço,
Hesitas e depois,
Com um gesto de tédio  de cansaço
Achas inconveniente,
O meu abraço.

Não vás para tão longe !
Fica. Inda é tão cedo !
O vento continua a fustigar
Os ramos sofredores do arvoredo,
E eu ponho-me a pensar
E tenho medo !

Não vás para tão longe !
Na sombra impenetrada,
Como se agita e se debate o vento !...
Paira nas ruínas velhas do convento.

Que além se avista,
A alma melancólica d`um monge
Que a vida arremessou àquela  crista,

Céu apagado, negro, pessimista,
E tu sempre mais longe !...

               "
   Fernanda  de  Castro "

terça-feira, 13 de maio de 2014

==== Uma Noite Em Lisboa ====

Um dia de verão, ao descer da noite,
As janelas se iluminavam...
Mais parecia estrelas no céu,
Na rua não se via ninguém,
Noite fechada...
Havia mistério, por entre a bruma,
Dos vapores do Tejo...
Ao longe os montes eram azuis,
Que se diluíam...
Ao crepúsculo, como aguarelas japonesas,
Devagar... como vapores adormecidos,
Relentos, de uma cama do andar de cima,
era a vizinha de pernas compridas...
Com a pele sedosa e mate,
iluminadas e intimas...
Das noitadas em surdina.
Ligeiras, ansiosas, acordavam...
das noitadas amorosas...
E já pelas ruas, 8 da manhã,
Havia movimento, num sussurrar...
Com gente a cheirar a sabão e a sono !

   


sábado, 10 de maio de 2014

«««««««« A RAIZ »»»»»»»»

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Descrevo a luz *** o vento *** as flores *** o tempo e o mar *** Descrevo o sol, o céu, as estrelas,
** a lua ** os sonhos na força de amar. ** Esqueci a raiz ! ?.** A raiz que me alimenta na terra mãe !
** O mundo, ** o ventre, ** o colo feminino, ** a parte humana que o corpo sustém.
** Amar ou aceitar ! ? **
Os meus gestos feitos por um corpo, **  que me define, como humana ?**
A raiz da terra nascida, ** no ventre sentida, no corpo parida **
posta na vida para viver!**
Vive a sonhar!
Ser livre, ser no tempo infinito de um voar!

     CIDÀLIA  M.  CORREIA

sábado, 26 de abril de 2014

** Prelúdio*** DE ALDA LARA *

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Pela estrada desce a noite
Mãe -- Negra, desce com ela...

Nem buganvílias vermelhas,
nem vestidinhos de folhos
nem brincadeiras de  guizos,
nas suas mãos apertadas,
Só duas lágrimas grossas,
em suas faces cansadas.

Mãe negra tem voz de vento,
voz de silencio batendo
nas folhas do cajueiro...

Tem voz de noite descendo,
de mansinho pela estrada...

Que é feito desses meninos
que gostavas de embalar ?...

Que é feito desses meninos
que ela ajudou a criar !...
Quem ouve agora as histórias
que costumavas contar ?...

Mãe--Negra não sabe nada...

Mas ai de quem sabe tudo,
como eu sei tudo
Mãe--Negra !...

Os teus meninos cresceram,
e esqueceram as histórias
que costumavas contar...

Muitos partiram para longe,
quem sabe se hão-de voltar !...

Só tu ficaste esperando,
mãos cruzadas no regaço,
bem quieta bem calada.

É a tua voz deste vento
desta saudade descendo,
de mansinho pela estrada.

      Lisboa, 1951