terça-feira, 27 de novembro de 2012

Esfinge == Soneto == Florbela Espanca

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Sou filha da charneca erma e selvagem:
Os giestais, por entre os rosmaninhos,
Abrindo os olhos de oiro, plos caminhos,
Desta minh´alma ardente são imagem.

E ansiosa desejo--ó vã miragem--
Que tu e eu, em beijos e carinhos,
Eu a Charneca, e tu o sol, sozinhos,
Fôssemos um pedaço da paisagem!

E á noite, á hora doce da ansiedade,
Ouviria da boca do luar
O De Profundis triste da Saudade...

E, á tua espera, enquanto o mundo dorme,
Ficaria, olhos quietos, a cismar...
Esfinge olhando, na planície enorme... 

sábado, 24 de novembro de 2012

Uma peça de ceramica feita por mim em grês:


"Poema de Carlos Drummond  de Andrade"«««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««

Por muito tempo achei que a ausência é falta,
E lastimava, ignorante, a falta, hoje não a lastimo
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a branca, tão pegada aconchegada nos meus braços,
Que rio e danço e invento exclamações alegres
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

 



quarta-feira, 21 de novembro de 2012

VOU LÀ VISITAR PASTORES de Ruy Duarte de Carvalho

Exploração epistolar de um percurso angolano em território Kuwale ( 1992-1997 ) 
Namibe ( Moçâmedes ) ( È um pequeno resumo de um livro que val a pena ler, depois conto mais)

O avião aterra no deserto e seria exelente, que te aguarda-se um daqueles dias de lumonisidade como os que podem ocorrer no tempo de chuvas, depois da tempestade, quando chove até nas costas doi,
Agosto encontrarás por certo uma manhã brumosa.
A humidade densa avança do lado do mar, tráz botas para andar e o tabaco que fumas, bastantes previsões de consumo, da gestão da água para beber, da comida, do que é preciso levar para oferecer ou eventualmente trocar por um cabrito;
Uma viagem depende de tais coisas, e não tolera falhas.
A Angola que eu sei, espera só por ti. Vais encontrar o que é hoje a Cidade mais preservada de Angola.
A guerra, propriamente dita, não passou lá. As chagas que lhe encontras são casas de adobe que perderam o teto, e que a chuva rara mas forte, vai diluindo. São casas antigas de traça algarvia.
Foram numerosas e muito activas, as colónias pesqueiras portuguêsas que vieram cá instalar-se.
Sairam diretas de Portugal carregando famílias e artes de pesca pelo Atlântico fora.

domingo, 18 de novembro de 2012

Identidade»»»»MIA COUTO««««


Preciso ser um outro,
para ser eu mesmo,

Sou grão de rocha,
Sou o vento que a desgasta,

Sou o polén sem inseto,

Sou areia sustentando,
o sexo das árvores,

Existo aonde me desconheço,
aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro,

No mundo que combato e morro,
no mundo por que luto nasço.



Alvaro de Campos**Heterónio de Ferando Pessoa


Não, não é Cansaço...

Não não é cansaço...
È uma quantidade de desilusão,
Que se me entranha na espécie de pensar,
È um domingo ás avessas,
Do sentimento,
Um feriado passado no abismo...

Não, cansaço não é...
È eu estar a existindo,
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Como tudo aquilo que nele se desdobra,
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais:


sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Fernando Pessoa " Sonho Não Sei Quem Sou"


Sonho. Não sei quem sou neste momento,
Durmo sentindo-me. Na hora calma,
Meu pensamento esquece o pensamento,
Minha alma não tem alma.

Se existo é um erro eu saber. Se acordo
Parece que erro, Sinto que não sei.
Nada quero nem tenho nem recordo.
     Não tenho ser nem lei.

Lapso da consciência entre ilusões,
Fantasmas que limitam e me contêm,
Dorme insciente de alheios corações,
Coração de ninguém.

Porque Hoje é Domingo


O céu está belo,azul, brilhante,
Mas chove...
Uma chuva forte, intensa, de cor e aromas,
Chovem pétalas coloridas,
As ruas ficam perfumadas,
De um odor doce, de quimeras e sentidos,
Que despertam para a vida,
As pessoas entreolham-se,espantadas,
Por tão inusitado evento,
Ninguém entende, nem explica,
Mas deixam-se deslumbrar,embalados,
Naquela mística beleza,
O chão está mudado na cor,
Qual tapete de retalhos,
Brilha, numa luminosidade,
Resplandecente,
Que fascina quem passa...
O que mais encanta,
E todos admiram,
São os cheiros de perfumes raros,
Talvez tudo isto se explique,
porque hoje é Domingo!

  Do Poeta " José Carlos Moutinho"